Loucura
De repente, abri os olhos,ergui a cabeça e olhei para a minha vida; tomei conhecimento de como existo. Vejo que tudo quanto tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e loucura. Sinto-me estranho por quanto fui e vejo afinal não sou eu. Maravilhei-me com o que consegui ver.
Olho com uma visão clara para a minha vida passada; e noto que todos os meus gestos, mesmo os mais claros, as minhas ideias mais claras, as minhas decisões mais lógicas, não foram, em conclusão, mais que bebedeira,loucura natural. Talvez não tenha sido eu o ator, mas os gestos são meus.
Tudo o que tenho feito, pensado, sido, é um conjunto de sujeições, ou um ser falso que julguei meu. Sou actualmente um solitário, que se reconhece expulso da sua terra onde sempre viveu como cidadão. Sempre fui um indivíduo que viajou entre o que sinto e o que vejo. Não sei se estou com febre, se deixei de ter febre e de ser um dormidor da vida.
Num momento encontrei-me numa vila que estranho, sem saber como lá cheguei. Depois acordei sobre uma ponte, debruçado sobre o rio e sabendo que existo; espero acordar do sonho e recuperar a inteligência e a verdade.
Foi um momento que já passou. Já vejo tudo o que me rodeia. Vi tudo num momento. Num momento vi-me. Agora já não sei o que fui. E tenho sono; acho que devo dormir.
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