Alucinação

 Durmo na minha existência, sem nunca querer acordar.Todos dormem, apesar de não ser noite. Jazo no sono, que o luar provoca na rua deserta; o silêncio balança o meu triste corpo. Nem sinto o sono que não tenho.

Tudo à minha volta é a noite e suas negações. Estou inquieto e sinto-me cansado de viver as coisas que vivo, como se fossem essenciais.

Por vezes, acordo com a alma sentindo pormenores da vida diária que emergem à superfície da consciência. Não fecho completamente os olhos. Coisas melancólicas. Paro de dormir e substituo isso por melhores coisas pensadas e ditas em segredo.
Todo o indefinido da noite se perde em complicações contínuas de labirintos naturais. Tudo isto.
É a vida e durmo deste modo, sem ter sono nem repousar. A trás de mim do lugar onde estou, o silêncio toca o infinito, o tempo cai, mas não se ouve cair. Sinto a memória  reduzida a nada de tudo o que não fui.
Sofro sem sentir nem pensar, tudo é tão negro e tão frio. Entretanto, um galo canta; não sabe que é noite, é manhã; posso dormir e, no novo sono que me escurece a alma, sonho com o galo que cantou e ele volta a cantar.


















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